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Existem pessoas que se assemelham a prédios, casas existenciais. Com o desenrolar do processo de terapia, fortalecida a interseção, somos convidados a observar com atenção as mais variadas arquiteturas.
Algumas construções positivistas, quando pintadas, “modernizadas”, parecem ser “da hora”, com o que há de melhor no requinte dos materiais existentes no mercado. Cores do momento, adereços e detalhes de decoração dão um “frescor” às paredes, escondendo infiltrações formadas pelo tempo. Espessas camadas de massa corrida são maquiagem, escondem as frestas, os desníveis deixados ao longo de paredes de dois metros e meio de altura. Quando passamos das fachadas e adentramos pelos corredores, nos confrontamos com antigos mosaicos imperiais. As salas ambientadas com peças clean, com tonalidades pastéis são vistas na maioria das revistas disponíveis no mercado sobre reformas de interiores. Esse conjunto de objetos destaca ainda mais a antiga arca no canto da sala onde incide um raio de sol. No seu interior é possível observar taças, cristais, xícaras inglesas lascadas e uma foto amarelada da família em um porta-retrato dourado. Se apreciarmos os demais cômodos, alguns utensílios, quadros, perfumes, tapetes, guarda-chuvas, livros, furador de papel, caneta tinteiro, esculturas em pedra-sabão chamam a atenção pelo contraste de gerações. Há também um baú colocado ao pé da estante de cedro no corredor lateral á esquerda que instiga meus olhos. Se com o tempo te alcançarem a chave abra com cuidado, lá para tua surpresa ou decepção estará a essência de toda uma existência, ou a ossada de um cadáver guardada com carinho. A primeira impressão ou as primeiras devem constar como peças de um grande quebra-cabeça necessário para entenderes o jogo, as jogadas, as circunstâncias. Será preciso para entender esta existência labiríntica ir além das fachadas, dos corredores, abrir portas, observar janelas e anexos. Podem existir quartos escuros no final da área de serviço que por enquanto não te foi permitido adentrar. Isso não quer em absoluto dizer que você não se deu conta de seu existir. O tempo dirá então se os fantasmas escondidos te serão apresentados algum dia. É esperar para saber. Cuidado! Não se engane com fachadas modernas, elas podem esconder mistérios inimagináveis. Tristezas que os dias não consumiram apesar dos risos constantes em uma boca onde o lábio superior treme quando entra em difusos pensares. Isso é apenas um relato de um dos modos de ser: “Porquanto a predicação afirma às vezes o que uma coisa é, ás vezes a sua qualidade, às vezes a sua quantidade, às vezes a sua relação, às vezes aquilo que faz ou o que sofre e ás vezes o lugar onde está ou o tempo, segue-se que tudo isso são modos de ser”. (Aristóteles – Metafísica) Coloque sobre todo este cenário sua atenção, aja debruce seu espírito sobre estas peças trazidas aos poucos com doses fortes de: afabilidade, amabilidade, anteparo, cautela, circunspecção, cortesia, cuidado, delicadeza, educação, gentileza, graciosidade, obséquio, ponderação, precaução, prudência e tento. Até que te conte sobre as três tentativas de suicídio. Sua queda, confusão que a fez andar em círculos de terror existencial. Que te confesse sobre as medicações, drogas e mais drogas que nublavam horizontes sem achar saída. Que te diga que passou por outras terapias com “profissionais” que usaram técnicas contraproducentes de aconselhamento, ditando procedimentos de vida, que não auxiliaram e sim fizeram aumentar o sofrimento. Dos agendamentos vis e incoerentes sobre como deveria agir com suas emoções, suas relações, tudo metido goela abaixo. Que só fizeram agravar suas somatizações, como falta de ar, uma asma que ressurgiu rebentando pulmões, além de complicações renais, desmaios e dores de cabeça dilacerantes. Deixa que te diga do fado, da perda da avó que tinha como mãe, pois a mãe mesmo nunca fez nada além de apontar o dedo e sugar todas as suas energias e apoiar as surras homéricas do pai. Escuta quando fala dos irmãos que perdeu pela fome, pela droga, pela AIDS. Perceba o quanto foi difícil perder a identidade, quando o namorado, um canalha, a deixou grávida e desempregada. Quando foi procurar trabalho e descobriu que existia alguém com o mesmo nome usando sua identidade e era uma procurada pela polícia. E de como teve que correr, chorar, juntar papéis, percorrer delegacias, repartições publicas com os filhos nos braços para dizer e comprovar que ela não era aquela bandida. De como teve que deixar seu apartamento para ir morar em uma vila distante pois era só o que conseguiu com os amigos que ficaram. Quando isso acontece, além do instrumental da clínica, há de se ter uma humanidade autêntica, essa será a hora de mostrares a tua performance. Este é o instante do “sim”, afirmação de nossa condição de seres inter-agentes. Se chegarmos a este ponto e seguirmos adiante, nossas potências efetivadas de terapeutas utilizarão os saberes da filosofia na direção de uma vida nova, que passa e se configurar na tua frente sem nada esconder. O partilhante está nu, aberto à renovação, ações criativas vão se delinear, tocante, envolvente, pulsante nesta duração intensa entre febres e alegrias. Nenhuma nudez merece será castigada. |