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Entrevista com Idalina Krause PDF Imprimir E-mail
Por Administrator   
13 de January de 2010

Idalina Krause é bacharel e licenciada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS), com especialização em Filosofia Contemporânea e Brasileira (PUC/RS) e em Filosofia Clínica (Instituto Packter, Porto Alegre). Atua desde 1998 como filósofa clínica em consultório. É professora do curso à distância de Filosofia do Instituto Packter. Publicou em 2007 o livro A arte de compartilhar, onde relata suas experiências em clínica. Seus escritos também podem acessados no blog: http://percepcoesinsones.blogspot.com/  e no site https://sites.google.com/site/idalinakrause/home (em atualização).

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Perguntas:

1)    Como você descobriu a Filosofia Clínica ?

Foi muito interessante o meu primeiro contato com a Filosofia Clínica. Ela chegou na minha vida em uma época em que eu estava triste e cansada pela vida profissional que levava e vi o anúncio sobre o curso em um jornal local aqui de Porto Alegre .
Mesmo com formação em Filosofia, eu exercia na época a atividade de contadora, mesma profissão de meu pai. Aliás, os meus clientes neste período já me pegavam para confidenciar problemas familiares, seus amores, buscas, suas problemáticas existenciais.
Acredito que seja da minha essência o saber ouvir, já usava de uma forma informal os conhecimentos da filosofia nesses casos. Eram muito gostosos esses papos que a gente levava. Inclusive, alguns de meus clientes desta fase são meus amigos até hoje.    
Em Trópico de capricórnio, de Henry Miller, tem uma passagem que fala do “salto”, como libertação para escapar do “mecanismo de relojoaria”. A Filosofia Clínica para mim foi este salto na busca de mim mesma, do aperfeiçoamento, da dedicação, da pesquisa do estudo para ter uma boa formação e instrumental suficiente para prestar atendimento aos partilhantes que nos chegam. Longe dos “gabinetes empoeirados” como fala Nietzsche, das repartições públicas enfadonhas, “vazias”, encontrei novos ares para respirar e tantas outras águas para beber, matando a minha sede de novos saberes.  
Ainda fazendo referência a Miller posso dizer que a formação e o aperfeiçoamento foram como música: “Música é o som silencioso feito pelo nadador no oceano da consciência. É uma recompensa que só pode ser dada por si próprio”.
O exercício existencial é a nossa vida com todo o seu movimento, sua duração, suas intensidades, alegrias, pesares e prazeres.  Foi assim simplificadamente que a Filosofia Clínica chegou e ficou na minha vida.   


2)    Fale um pouco do desenvolvimento do 'ser Filósofa Clínica' desde o começo de sua caminhada de estudos na formação.

Acho que com a formação primeiro vem o deslumbre, depois o choque, depois o se despir, após reconstruir, depois dedicação, trabalho e estudos constantes.
Deslumbre como exemplo do ar que falei acima, é diferente do ar rarefeito da academia; é a novidade de colocar os conhecimentos filosóficos na prática. Saberes dos mais variados autores da história da filosofia no exercício de conhecer, buscar entendimento sobre o humano.
Isso choca muitas vezes, pois são abertas portas e janelas das quais tu não tinhas acesso, deste modo é um mergulho.
O se despir que falo é que quando adentramos no profundo dos Exames Categoriais, estudos sobre as mais variadas Estruturas de Pensamento e Submodos, isso tudo acaba se configurando numa auto-análise, da tua visão de mundo, pré-juízos, buscas, significados, axiologia etc. E muitas vezes isso causa estranheza, mas é parte do processo de formação, transformação do que vem à superfície.
E esta metamorfose toda exige desconstruções, reconstruções constantes que irão surgir com as leituras, pesquisa e principalmente com o atendimento de consultório. Costumo brincar com os meus alunos usando um termo popular que alguns poderão achar chulo, mas serve como vice-conceito, o de ter cuidado para não “fazer nas coxas”. Se pretendem ser bons filósofos clínicos, pensadores que se debruçam sobre as inúmeras possibilidade da existência humana, com certeza a produção de saberes deverá acontecer de uma forma integral, de corpo e alma.
Caso contrário, será qualquer coisa sem a febre das paixões. Isso é o que me move neste o princípio, o nunca saber tudo, o inusitado, ter a abertura e o frescor de ser aprendiz, não professar: trocar.             

3) Como você vê a expansão da Filosofia Clínica, com a ampliação das parceiras com faculdades e universidades, clínicas, hospitais e consultórios ? Inclusive com o início da graduação em Filosofia Clínica, prevista para 2011.

Acho que é uma expansão positiva, que chega para brindar a todos que tem trabalhado
com ética e responsabilidade que o exercício da Filosofia Clínica exige. Mas gostaria de pontuar que nesse processo que vem ocorrendo lenta, mas progressivamente, não podemos de maneira nenhuma perder o foco inicial. E quando falo em foco inicial é a qualidade na formação do Filósofo Clínico. Nossos esforços devem atentar sempre nesta direção. Isso fará com que a Filosofia Clínica adentre cada vez mais e onde quer que seja, será vista e respeitada.
 
4)    Indique algumas fontes de inspiração teórica ao seu trabalho.  
Nossa são tantas! Sou uma curiosa contumaz, devoradora de livros. Tentarei alguns, por ordem alfabética os principais:
Aristóteles – Ética a Nicômaco
Austin – Sentido e percepção
Bergson – Matéria e memória
Barthes – (todos)
Beauvoir – A convidada  
Boff – Saber cuidar
Calligaris – Cartas a um jovem terapeuta
Chauí – Repressão sexual
Deleuze – (todos)
Foucault – (todos)
Hume – Investigação sobre o entendimento humano
Kant – Crítica da razão pura
Kierkegaard – Desespero. A doença mortal
Lou Andreas-salomé – Carta aberta a Freud
Merleau-Ponty – Elogio da filosofia e Fenomenologia da Percepção
Nietzsche – (todos)
Sartre - (todos)
Schopenhauer – O mundo como vontade e representação – A arte de ser feliz
Sacks – Um antropólogo em marte e o homem que confundiu sua mulher com um chapéu
Spinoza - Ética  
Wittgenstein – Tractatus lógico-philosophicus e Investigação filosóficas

Acho que esses já dão um bom caldo, muito o que pensar e refletir. Além da boa literatura que é fundamental numa boa formação. Aqui vão outras dicas:
Caio Fernando Abreu – Ovelhas negras
Antonin Artaud – Escritos de Antonin Artaud
Samuel Beckett – Malone morre
Gustave Falubert – Educação sentimental e Madame Bovary
Henry Miller – Trópico de capricórnio
Rainer Maria Rilke – O livro das horas
João Guimarães Rosa – Grande sertão veredas
Van Gogh – Cartas a Théo
Oscar Wilde – De profundis e outros escritos do cárcere
Clarice Lispector – (todos)
Ferreira Gullar – Crime na flora
Fernando Pessoa – (todos)
Florbela Espanca - (todos)
Cora Coralina – Poemas dos becos de Goiás
Charles Baudelaire – Paraísos Artificiais
Raduan Nassar – Lavoura arcaica
Virginia Woolf – Objetos sólidos
 Bukowski - Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski

5) O que você tem a dizer aos estudantes que estão iniciando o curso de Filosofia Clínica ?

Bem-vindos! Prepare-se para uma revolução em suas existências.
 Se o caminho a ser percorrido for feito com ética, trabalho e responsabilidade terão sucesso.
 Estudem!!! A filosofia é uma amante, a Filosofia Clínica idem. Tenham prazer, alegria no exercício do pensar, no estudo e na pesquisa do humano.
Amem, se apaixonem, ela vai retribuir com carinho todas as trocas de carícias de saberes e sabores únicos do trabalho terapêutico.

“O trabalho terapêutico é uma arte que requer sabedoria, habilidade, imaginação para acomodar, adaptar, construir, desconstruir, amenizar choques, equilibrar. Somos contempladores de universos, paisagens que se deixam revelar em suas belezas singulares em constante devir”. (Trecho do livro A arte de compartilhar)

 

 
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