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Monografia: ANÁLISE DO PERSONAGEM SIMÃO BACAMARTE PDF Imprimir E-mail
Por Rosemary Chalfoun Bortolucci   
13 de January de 2010
RESUMO

 

Este trabalho tem como objetivo demonstrar a impossibilidade do fazer clínico sem a PRESENÇA e a HISTÓRIA contada pela pessoa. Para tanto utilizamos a tentativa de analisar Simão Bacamarte – protagonista da obra ‘O Alienista’, de Machado de Assis.


Quando uma pessoa procura o filósofo clínico traz questões que o angustiam, entre essas questões poderão surgir implicações em sua relação com outra pessoa, sobre a qual ela se reportará, porém tudo que ela disser sobre essa pessoa não passará de sua representação.

Simão Bacamarte, obra de ficção, um ser cuja existência está atrelada ao universo das palavras, condicionada ao seu criador, portanto, a sua representação, não podendo presentificar-se e nem contar a sua história, inviabiliza o fazer clínico.

Palavras chave: Ciência, Loucura, Representação, Historicidade, Presença.

 

 ANÁLISE DO PERSONAGEM SIMÃO BACAMARTE: PROTAGONISTA DA OBRA ‘O ALIENISTA’, DE MACHADO DE ASSIS,

Á LUZ DA FILOSOFIA CLÍNICA

    

Investigando as circunstâncias de cada sujeito, a partir de suas representações e contextos de vida,  pode se conceder mais legitimidade ao fazer clínico.

Hélio Strassburger


O Alienista é uma crítica ao cientificismo exacerbado do século XIX. Nessa obra Machado de Assis faz uma reflexão a respeito dos limites entre a razão e a loucura.

O início do texto é uma narrativa descomprometida com o conteúdo das in-formações, pois o narrador se reporta aos cronistas para contar uma história de tempos remotos.

As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em tempos remotos vivera ali certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas (ASSIS, 1994, p.1)


Para compreender a obsessão de Bacamarte pela loucura faz-se necessário uma viagem ao seu tempo e ao seu contexto, mas como fazê-lo?

De acordo com a Filosofia Clínica para entendermos uma pessoa, preci-samos conhecer-lhe a história narrada por ela mesma, e a história do nosso per-sonagem nos chega por meio de um narrador que não se preocupa com a veraci-dade dos fatos, remetendo-se aos cronistas, o que torna a história ainda mais dis-tante.  

 

Conforme Gadamer, para compreendermos um texto é necessário que es-tejamos receptivos a ele, ou seja, entendê-lo sem anteciparmo-nos com as nossas opiniões.

 (...) Em princípio, quem quer compreender um texto deve estar disposto a deixar que este lhe diga alguma coisa. Por isso, uma consciência formada hermeneuticamente deve, desde o princípio, mostrar-se receptiva à alteridade do texto. (GADAMER, 2003, p.358)


Para propiciarmos essa alteridade devemos abdicar de nossas opiniões prévias e dedicarmo-nos à compreensão do nosso personagem por meio de sua historicidade. Para tanto precisamos nos ater à continuidade da leitura.

Logo a seguir há um narrador-onisciente que centraliza a sua atenção em Simão Bacamarte, o principal personagem do conto, dando a entender que a his-tória é verídica.

- A ciência – disse ele a Sua Majestade – é o meu emprego único; Itaguaí é o meu universo. Dito isto, meteu-se em Itaguaí, e entregou-se de corpo e alma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasmas. (ASSIS, 1994, p.1)


O Dr. Simão Bacamarte, médico da Corte, volta à terra natal, Itaguaí, para dedicar-se inteiramente ao estudo da ciência.  Casou-se aos quarenta anos com dona Evarista, valorizando única e exclusivamente os seus dotes biológicos, prete-rindo qualquer atributo estético, pois acreditava que para dar-lhe filhos robustos e inteligentes a sua esposa era a pessoa ideal.

 

    (...) Simão Bacamarte explicou-lhe que D. Evarista reunia condições fisiológicas e anatômicas de primeira ordem, digeria com facilidade, dormia regularmente, tinha bom pulso e excelente vista; estava assim apta para dar-lhe filhos robustos, sãos e inteligentes. (ASSIS, 1994, p. 1)


Simão Bacamarte foi traído pelos seus pré-conceitos. D. Evarista não lhe deu filhos, nem robustos, nem sãos, nem inteligentes, nem mirrados, nem enfermos, nem ineptos.

    O nosso personagem ao escolher a esposa, tendo como base conhecimentos prévios acerca da fisiologia do corpo feminino exerce o que se denomina em Filosofia Clínica de ‘Pré-juízos’ – verdades a priori da pessoa.

    De acordo com Gadamer:

(...) Em si mesmo, ‘preconceito’ (Voruteil) quer dizer um juízo (Ur-teil) que se forma antes do exame definitivo de todos os momentos determinantes segundo a coisa em questão (Gadamer, 2003, p. 360)


    Por meio dos Pré-juízos de Bacamarte, o autor ironiza o rigor científico e provoca uma reflexão sobre a psicologia vigente no século XIX.

(...) Não havia na colônia, e ainda no reino, uma só autoridade em semelhante matéria, mal explorada, ou quase inexplorada. Simão Bacamarte compreendeu que a ciência lusitana e particularmente a brasileira, podia cobrir-se de ”louros imaercescíveis” – expressão usada por ele mesmo, mas em um arroubo de intimidade doméstica; exteriormente era modesto, segundo convém aos sabedores.  (ASSIS, 1994, p.1)

 Depois de algum tempo de dedicação à medicina o ilustre médico opta por estudar os limites entre a razão e a loucura.  Para tanto constrói uma casa e pinta as janelas de verde, por isso esse abrigo passou a chamar-se Casa Verde.

 O médico manda recolher à casa verde, os desajustados mentais, no pri-meiro momento aqueles que eram reconhecidamente loucos, os casos mais graves. Estudava com profundidade cada caso para descobrir os enigmas que circundam a loucura.

Dedicando-se em tempo integral às suas pesquisas esquece de si mesmo e de Dona Evarista, que lhe reclama a solidão. Para preencher-lhe a lacuna causada pela sua ausência recomenda-lhe uma viagem ao Rio de Janeiro, desejo antigo de sua consorte.

    Após detalhado estudo sobre a mente humana, Bacamarte empreende uma nova teoria que dá mais abrangência ao conceito de loucura, levando a cabo a mais antiga.

 

    - Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência cientí-fica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. (ASSIS, 1994, p. 8)

    

    E institui a distinção entre mente saudável e mente alienada.

 

    - Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, se-nhor Soares, é ver se posso extrair a pérola que é a razão; por ou-tros termos, demarquemos definitivamente os limites da razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades: fora daí insânia, insânia, e só insânia. (ASSIS, 1994: p. 9)


    Após alguns dias da exposição da nova teoria começam a surgir uma infini-dade de novos casos recolhidos à casa verde. Pessoas que até então eram consi-deradas “normais”: Mateus, por passar horas a fio a contemplar a casa que cons-truíra – “talvez padecimento do amor das pedras”; Costa, homem que recebera inesperadamente uma vultosa herança, e esbanjou-a da mesma forma que recebera; uma prima que por ele foi interceder, justificando de forma mítica o esbanjamento da herança; também foi encarcerada; Martins Brito, pelo fato de ter se estendido em sua oratória, quando da volta de dona Evarista do Rio de Janeiro; Gil Bernardes, por excesso de cortesia, entre tantos, a própria esposa do Alienista, dona Evarista, que passara a noite hesitando entre um colar de granada e outro de safira para ir ao baile – “caso de mania sumptuária”.

Cada um desses casos é classificado pelo alienista como um tipo de pato-logia e os sintomas determinavam o grau de loucura de cada recluso à casa verde.

 De acordo com Pessotti, Pinel (1745 -1826) entendia a loucura como com-prometimento ou lesão da vontade.

 

    A loucura é entendida como comprometimento ou lesão funda-mental do intelecto e da vontade, e se manifesta no comportamento do paciente, nos sintomas, sob as mais variadas formas. Mas formas muito diferentes entre si podem ter em comum o fato de refletirem um determinado tipo de lesão da vontade e do juízo. As propriedades que são comuns entre elas podem servir de critério de classificação e de diagnóstico (PESSOTTI, 1994, p.146)


Em virtude do grande número de reclusos, insurge uma rebelião – Revolta dos Canjicas – em Itaguaí, liderada por Porfírio, barbeiro da vila.

     

   - Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de alienista a ninguém, salvo aos mestres e a meu Deus. Se quereis emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a ouvir-vos; mas se e-xigis que me negue a mim mesmo, não ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós, em comissão dos outros, a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não farei a leigos, nem a rebeldes (ASSIS, 1994, p.19)


O barbeiro Porfírio prometera destruir a Casa Verde, mas uma vez no poder, surpreende até o Doutor Bacamarte, fazendo com ele um pacto:

 

     - Engana-se Vossa senhoria, disse o barbeiro depois de alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica, e não cogita em resolver com posturas as questões científicas. Demais, a Casa Verde é uma instituição pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há, entretanto - por força que há de haver – um alvitre intermédio que restitua o sossego ao espírito público (ASSIS: 1994: p, 23-24)


O barbeiro, com esse discurso e pleiteando a simpatia e apoio político de Bacamarte, assinou a sua sentença e a de seus companheiros de rebelião. O ali-enista perplexo com a sua atitude contraditória passa a considerá-lo louco e o re-colhe à Casa Verde, juntamente com outros participantes da rebelião. Esse acon-tecimento enseja uma nova revolta, e desta feita, o barbeiro João Pina assume o poder, mas Itaguaí só restabeleceu-se do caos, quando da chegada de uma força enviada pelo vice-rei.

Todos esses acontecimentos propiciaram ainda mais o fortalecimento do Dr. Simão Bacamarte, que continua com suas pesquisas acerca da loucura. Para tanto recolhe à casa verde todas as pessoas que apresentam sinais de demência:

 

                                     (...) Os cultores de enigmas, os fabricantes de charadas, de anagra-mas, os maledicentes, os curiosos da vida alheia, os que põem todo o seu cuidado na tafularia, um ou outro almotacé enfunado, ninguém es-capa aos emissários do alienista. (ASSIS, 1994, p.26)


Os cronistas não sabem ao certo os motivos reais pelos quais as pessoas eram recolhidas à Casa Verde. Mas de acordo com a alteridade do texto compre-ende-se que há uma fixação do alienista pela loucura, ele ver loucura nos mínimos gestos, pois a sua imagem mental obedece aos padrões de normalidade instituídos pela ciência e tudo que foge a esses padrões Bacamarte, o seu ilustre representante considera loucura.

Para Schopenhauer, o mundo é minha representação.

(...) Torna-se claro e certo que não conhece sol algum e terra al-guma, mas sempre apenas um olho que vê um sol, uma mão que toca uma terra. Que o mundo a cercá-lo existe apenas como re-presentação, isto é, tão somente em relação a outrem, aquele que representa, ou seja, ele mesmo (SCHOPENHAUER, 2005, p.43)


Para Bacamarte a loucura é o objeto de sua paixão e a sua representação quanto à mesma, tem como parâmetro a ciência. A ciência toca-lhe fundo a alma. Por meio da ciência ele pode se especializar na compreensão da mente humana – um lugar misterioso que lhe causa fascínio.

Porém, com o passar do tempo, o alienista muda a sua postura em relação à loucura, suas conclusões apontam para outro tipo de demência. E para espanto da população itaguaense, põe todos os loucos na rua. Lavra um ofício e o encaminha à Câmara:

   De fato, o alienista oficiara à Câmara expondo: - 1º, que verificara das estatísticas da vila e da Casa verde que quatro quintos da população estavam aposentados naquele estabelecimento; 2º, que esta deslocação de população levara-o a examinar os fundamentos da sua teoria das moléstias cerebrais, teoria que excluía do domínio da razão todos os casos em que o equilíbrio das faculdades não fosse perfeito e absoluto; 3º, que desse exame e do fato estatístico resultara para ele a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquela, mas a oposta, e portanto que se devia admitir como normal e exemplar o desequilíbrio das faculdades, e como hipóteses patológicas todos os casos em que  aquele equilíbrio fosse ininterrupto; 4º, que à vista disso declarava à Câmara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agasalhar nela as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5º, que tratando de descobrir a verdade científica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da Câmara igual dedicação; 6º,que restituía à Câmara e aos particulares a soma do estipêndio recebido para alojamento dos supostos loucos, descontada a parte efetivamente gasta com a alimentação, roupa, etc; o que a Câmara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.

   O assombro de Itaguaí foi grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, danças, luminárias, músicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso propósito; mas foram esplêndidas, tocantes e prolongadas.

   E vão assim as coisas humanas! No meio do regozijo produzido pelo ofício de Simão Bacamarte, ninguém advertia na frase final do § 4º, uma frase cheia de experiências futuras (ASSIS, 1994, p. 28)


Metaforizando a ciência, Simão Bacamarte se permite mudar de pensamento e de postura em relação ao seu objeto de estudo – a mente humana, pois o seu método baseia-se em experimentações, experimentações essas que podem gerar como resultado de suas pesquisas verdades ou falsidades. Uma vez detectadas “verdades”, elas passam a ser consideradas válidas universalmente, porém se forem detectadas “falsidades” são porque o cientista incorreu em erro, o que o leva a mudar de postura, dedicando-se novamente à pesquisa em busca da verdade. É o que promete Simão Bacamarte no § 4º.

Dando continuidade às suas pesquisas, Simão modifica as suas convicções a respeito da loucura. Louco não é mais esse sujeito desajustado, mas sim aquele que transparece sanidade mental. Então substitui os antigos moradores da Casa Verde, que dantes eram considerados loucos, por aqueles que eram considerados sãos.

   Os alienados foram alojados por classes. Fez-se uma galeria de modestos, isto é, dos loucos em quem predominava esta perfeição moral; outra de tolerantes, outra de verídicos, outra de símplices, outra de leais, outra de magnânimos, outra de sagazes, outra de sinceros, etc. (ASSIS, 1994, p.31)


O barbeiro Porfírio foi procurado secretamente por alguns principais de Ita-guaí para que provocasse a eclosão de um novo movimento contra a câmara e ao alienista, mas a resposta foi negativa, preferiu aguardar as decisões da câmara de autorizar a prolongação das experiências do alienista.

Com alguns meses de tratamento todos foram soltos, provando que estavam curados após revelarem algum desequilíbrio. Porém, Bacamarte não se dá por satisfeito, não chegara a uma conclusão em suas pesquisas; começa a desconfiar que ele não havia curado ninguém, que os pacientes só haviam revelado um desequilíbrio que já possuíam anteriormente. Por isso ele passa a ser o centro de suas pesquisas. Toma consciência de que é a única pessoa equilibrada em Itaguaí e recolhe-se à casa verde.

   - A questão é científica, dizia ele; trata-se de uma doutrina nova, cujo primeiro exemplo sou eu. Reúno em mim mesmo a teoria e a prática. (ASSIS, 1994, p.35)


Não adiantaram as súplicas de dona Evarista nem os rogos dos amigos, Bacamarte estava decidido. Mais uma vez apossara-se de uma nova teoria.

   Mas o ilustre médico, com os olhos acesos da convicção científi-ca, trancou os ouvidos à saudade da mulher, e brandamente a re-peliu. Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e à cura de si mesmo. Dizem os cronistas que ele morreu dali a dezes-sete meses, no mesmo estado em que entrou, sem ter podido al-cançar nada. Alguns chegam ao ponto de conjeturar que nunca houve outro louco, além dele, em Itaguaí; mas esta opinião, fundada em um boato; e boato duvidoso, pois é atribuído ao Padre Lopes, que com tanto fogo realçara as qualidades do grande homem. Seja como for, efetuou-se o enterro com muita pompa e rara solenidade. (ASSIS, 1994, p.35)


Nesse conto, o autor, além de inferir uma reflexão acerca das fronteiras entre a razão e a loucura, cogita das questões de poder, pois todos os personagens que detém algum poder coligam - se de alguma forma com o Doutor Bacamarte.

Ao longo da leitura da obra “O alienista”, a qual tinha por objetivo fazer a análise do seu protagonista – o doutor Simão Bacamarte, à luz da Filosofia Clínica, encontramos um obstáculo: a Filosofia Clínica deixa muito claro que para se ter acesso à pessoa, faz-se necessário a sua história contada por ela mesma. Pois bem o entrave aqui se dá duplamente, pois não temos a história contada por Bacamarte e nem Bacamarte é uma pessoa. Ele é uma personagem, um ser de uma realidade ficcional. A personagem é uma criação, portanto está condicionada ao seu criador, atuando assim como o seu porta-voz, a sua representação.

De posse desse saber resta-nos reportarmo-nos à historicidade do autor. Machado de Assis nasceu e viveu no século XIX. Foi nesse período que escreveu O “Alienista”, uma obra realista, na qual o seu protagonista – Simão Bacamarte atua como uma metáfora da ciência.

A psiquiatria, no século XIX, surge sob o signo da dominação:

   Essa prática psiquiátrica aumentada em seu mistério e obscure-cida para aqueles mesmos que a utilizavam, é a responsável por muita coisa na situação estranha do louco no interior do mundo médico. A princípio, porque a medicina do espírito, pela primeira vez na história da ciência ocidental, vai assumir uma autonomia quase completa: desde os gregos ela não passa de um capítulo da medicina, e vimos Willis  estudar a loucura sob a rubrica das “doenças mentais”; após Pinel  e Tuke , a psiquiatria vai tornar-se uma medicina de um estilo particular: os mais obstinados em des-cobrir a origem da loucura nas causas orgânicas ou nas disposi-ções hereditárias não escaparão a esse estilo. E lhe escaparão menos ainda na medida em que esse estilo particular – com o uso de poderes morais cada vez mais obscuros – estará na origem de uma espécie de má consciência; encerrar-se-ão tanto mais no po-sitivismo quanto sentirão sua prática escapar a essa esfera.  (FOUCAULT, 2008: p. 500)


Ao nos reportarmos ao contexto histórico no qual o autor estava inserido, percebemos que Simão Bacamarte é uma representação que seu autor utiliza para mostrar o seu incômodo com a medicina de sua época.  

Bacamarte é um personagem que conduz a ação e que representa a temática do autor, a sua inquietação, demonstra, portanto o seu desejo de criticar o rigor que dominava o pensamento científico do seu tempo.

Mediante a impossibilidade de analisarmos Bacamarte, em virtude da sua condição existencial – de um ser inexistente além das palavras, cuja presença só se dá no universo da ficção, resta-nos caminharmos em busca de saberes que nos farão compreender as razões pelas quais só é possível estabelecermos uma clínica filosófica mediante a presença e a história da pessoa contada por ela mesma.

No primeiro contato com a clínica, a pessoa que a procura o faz por questões que a angustia, o filósofo clínico, por sua vez, só poderá ajudá-la mediante o conhecimento de sua história. Para tanto inicia os procedimentos clínicos. A partir da história da pessoa, que deverá ser ouvida pacientemente, inicia os Exames Categoriais – localizar existencialmente a pessoa, em seguida monta a sua Estru-tura de Pensamento – modo de ser da pessoa, então juntamente com a pessoa elege ou constrói submodos – maneiras de lidar com as situações. A historicidade é, portanto imprescindível ao fazer clínico.

Historicidade, “Modo de ser do mundo histórico ou de qualquer realidade histórica.” (ABBAGNANO, 2003, p. 508) O homem está na história, a sua existência se dá na história. Toda a sua vivência, todas as suas experiências passadas e presentes acontecem num tempo e num espaço, ele é uma realidade histórica.

A história contada pela pessoa é o que possibilita o encontro entre filósofo clínico e partilhante – a pessoa que o procura para ajudá-lo em suas questões. É esse veículo – a historicidade, que conduz a ambos ao universo existencial do partilhante, às suas circunstâncias passadas e presentes. Com o contar e recontar da história é possível localizar existencialmente a pessoa, se ela está no presente ou em algum lugar no passado, pode ter-se uma compreensão do seu tempo – em que momento ela prima pelo tempo objetivo e em que momento ela prima pelo tempo subjetivo e qual o peso de suas relações com as outras pessoas, com os animais, com os objetos e com ela mesma.

Quando o filósofo clínico encontra seu partilhante, ali está uma realidade histórica (uma obra de arte, um texto, um contexto) que ele precisa conhecer, e isso só se dará mediante a narração do autor que vive essa história, a própria pessoa. A partir daí constatamos a imprescindibilidade da PRESENÇA deste ser, do qual nada sabemos. E, para sabê-lo faz-se necessário enlaçá-lo de compreensão.

A presença é um modo de ser, de estar no mundo, inserido num tempo e num espaço. A presença é uma realidade história.

Conforme Heidegger

   A “essência” está em ter de ser. A qüidade (essentia) deste ente, na medida em que se possa falar dela, há de ser concebida a partir do seu ser (existência)... A “essência” da pré-sença está em sua existência. As características que se podem extrair deste ente não são, portanto, “propriedades” simplesmente dadas dado que possui esta ou aquela “configuração”. As características constitutivas da presença são sempre modos possíveis de ser e somente isso. (HEIDEGGER, 1999, P.77, 78)


    A clínica se dá em virtude do aparecimento do partilhante, a clínica é o ponto de partida para as expressividades e, por meio dessas expressividades, via in-terseção com o filósofo clínico, ele -  filósofo clínico terá acesso a essa subjetivi-dade, a esse modo de ser, a essa presença no mundo, a essa realidade histórica.

    A partir da história contada pela pessoa, iniciam-se os procedimentos clíni-cos: Exames Categoriais, que têm como objetivo localizar existencialmente a pes-soa, ou seja, conhecer a realidade na qual ela está inserida. Logo após os Processos Divisórios, com o intuito de dividir a história em partes  para obtenção  de mais dados, os Enraizamentos, para esclarecer os significados dos termos e acessar outras informações que por ventura não tenham surgido do decorrer na narração da história.  Enquanto isso se monta a Estrutura de Pensamento, modo de ser da pessoa, como ela vive, pensa e age.  A partir daí elege-se ou constrói-se Submodos, modos de agir subordinados à Estrutura de Pensamento (AIUB, 2004).

    Esses procedimentos clínicos são inviáveis sem a PRESENÇA e a HISTÓRIA contada pela pessoa. O nosso ilustre personagem – o Doutor Simão Bacamarte, pelo fato de não presentificar-se e nem contar a sua história, em virtude de sua condição (de realidade ficcional), não pode ser submetido ao Fazer Clínico.

 

BIBLIOGRAFIA

ABBAGNANO, NICOLA. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins fontes, 2003.

AIUB, Mônica. Para entender Filosofia Clínica – O apaixonante exercício do filoso-far. Rio de Janeiro: WAK, 2004.

ALVES. Rubem. Entre a Ciência e a Sapiência – O dilema da educação. São Pau-lo: Loyola, 1999.

ASSIS, Machado. O Alienista. São Paulo: Scipione, 1994.

BETH, Brait. A Personagem. São Paulo: Ática, 1999.

BOCK, Ana Mercês Bahia; FURTADO Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes Trassi. Psicologias – Uma Introdução ao Estudo de Psicologia. São Paulo: Saraiva, 2001.

FOUCAULT, Michel. História da Loucura. São Paulo: Perspectiva, 2008.

GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método I – Traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica; tradução: MEURER, Flávio Paulo. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

HEIDEGGER, Martim. Ser e Tempo, parte I e II, 7ª edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.

PAULO, Margarida Nichele. Compêndio de filosofia Clínica. Porto Alegre: Imprensa Livre, 1999.

PESSOTI, Isaias. A Loucura e as Épocas. São Paulo: editora 34, 1994.

SCHOPENHAUER, Artur. O mundo como vontade e como representação. São Paulo: UNESP, 2005.

 
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